Debate presidencial leva ferrovias e BR-319 ao centro das propostas
Flávio Bolsonaro prometeu um trem ligando capitais nordestinas, enquanto Lula citou obras ferroviárias e a pavimentação da rodovia entre Manaus e Porto Velho

Os candidatos à Presidência Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) usaram o debate da TV Globo, realizado na sexta-feira (23), para apresentar obras de infraestrutura como parte de suas estratégias para o próximo mandato. Flávio prometeu construir uma ferrovia de passageiros pelo Nordeste, enquanto Lula defendeu investimentos realizados durante seu governo e citou a pavimentação da BR-319, ligação entre Manaus (AM) e Porto Velho (RO).
As propostas têm alcance nacional e não preveem obras específicas em Santa Maria. Ainda assim, o debate interessa ao Rio Grande do Sul porque expõe como os candidatos pretendem financiar, conceder e executar grandes projetos de transporte. Também revela que a ampliação da malha ferroviária ganhou espaço comum entre as campanhas, embora os detalhes técnicos e financeiros de algumas promessas ainda não estejam definidos.
Trem de passageiros pelo Nordeste
Flávio Bolsonaro afirmou que pretende construir uma ferrovia de aproximadamente 1.400 quilômetros para ligar capitais nordestinas. O projeto apresentado em seu plano de governo prevê passagem por Salvador, Aracaju, Maceió, Recife, João Pessoa, Natal e Fortaleza. Durante o debate, o candidato associou a linha ao crescimento do turismo e à geração de renda para trabalhadores do setor.
Segundo o material divulgado pelo Poder360, a campanha ainda não apresentou um traçado detalhado, estudo prévio de viabilidade, orçamento ou cronograma para o empreendimento. Esses documentos normalmente servem para avaliar o custo da obra, a demanda esperada, os impactos ambientais e a forma de execução, mas não foram informados no caso da proposta citada no debate.
A coordenadora econômica da campanha, Daniella Marques, declarou que o projeto poderia ser realizado com recursos de empresas privadas, concessões ou parcerias público-privadas. A promessa, de acordo com a campanha, não exigiria aporte do Orçamento da União. O modelo dependeria da participação de investidores interessados em operar ou explorar economicamente a ferrovia.
Além do trem nordestino, Flávio disse que pretende ampliar a quantidade de ferrovias no país, concluir as obras da Transnordestina e investir na concessão de rodovias. O candidato também indicou que daria continuidade a políticas lançadas durante o atual governo, incluindo a carteira de projetos ferroviários.
Lula cita obras em andamento e futuras concessões
Lula concentrou sua fala na defesa dos investimentos feitos durante a gestão atual. O presidente mencionou a Transnordestina e os projetos da Ferrovia de Integração Centro-Oeste (FICO) e da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (FIOL). Apesar de afirmar que as ferrovias já estão sendo feitas, o Poder360 informou que esses empreendimentos devem ser levados a leilão somente em 2027.
Um leilão de concessão é a etapa em que o governo seleciona uma empresa ou grupo para construir, administrar ou explorar determinado trecho, conforme regras estabelecidas em edital. Por isso, a realização futura dos leilões indica que parte dos projetos citados ainda depende de procedimentos administrativos antes de avançar para a execução ou operação.
No setor rodoviário, Lula destacou a Nova Serra das Araras, trecho da Via Dutra entre o Rio de Janeiro e São Paulo. Durante o debate, classificou a obra como um investimento de quase R$ 12 bilhões. Conforme o Poder360, porém, o valor anunciado pelo governo em junho era de R$ 1,5 bilhão. A diferença entre os números não foi esclarecida no material.
BR-319 reúne logística e conflito ambiental
A BR-319 também apareceu entre as principais obras mencionadas por Lula. A rodovia tem cerca de 885 quilômetros e conecta Manaus a Porto Velho, funcionando como a principal ligação terrestre da capital amazonense com o restante da malha rodoviária nacional.
A estrada foi iniciada durante o governo Costa e Silva, entre 1967 e 1969, e inaugurada em 1972. O asfaltamento começou em 2001, com 58 quilômetros a partir de Porto Velho e outros 100 quilômetros a partir de Manaus. O maior problema está no chamado trecho do meio, entre os quilômetros 250 e 655, área em que a rodovia atravessa uma região preservada da Floresta Amazônica.
Durante o período de chuvas, a pista fica lamacenta e veículos podem atolar. A pavimentação do trecho enfrenta oposição de ambientalistas, pesquisadores e órgãos de controle, que apontam riscos de desmatamento, grilagem, ocupação irregular e abertura de ramais clandestinos. O Ministério do Meio Ambiente também passou a exigir medidas de proteção associadas ao avanço da obra.
O conflito entre infraestrutura e preservação ficou evidente em 2023, quando o governo criou um grupo de trabalho para estudar a rodovia no âmbito do Novo PAC sem incluir o Ibama e o Ministério do Meio Ambiente. A partir do fim de 2024, Lula passou a defender publicamente a conclusão da BR-319, mas condicionou a execução à adoção de salvaguardas ambientais.
Plano 319 tenta destravar a obra
O impasse entre os ministérios dos Transportes e do Meio Ambiente foi encaminhado em julho de 2025, após um acordo promovido por Lula. O entendimento resultou no chamado Plano 319, que estabeleceu ações de proteção ambiental e medidas de desenvolvimento para moradores do entorno, ao mesmo tempo em que criou condições para a continuidade dos trabalhos.
Em 2026, o governo passou a buscar mecanismos para acelerar o licenciamento e a execução da rodovia. Em 13 de abril, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) publicou editais para melhorias no trecho entre os quilômetros 250,7 e 590,1.
Para o leitor, a situação mostra que a conclusão da BR-319 não depende apenas de decisão política ou de recursos para pavimentação. O projeto também está submetido a licenciamento, controle ambiental e medidas para reduzir os efeitos da ocupação desordenada da floresta. A mesma lógica se aplica a novas ferrovias: antes da operação, são necessários estudos, definição de traçado, orçamento, modelo de financiamento e autorização dos órgãos responsáveis.
As falas no debate, segundo o Poder360, indicam convergência entre os candidatos na defesa de uma expansão ferroviária, mas apresentam diferenças sobre prioridades e execução. Flávio destacou uma nova ligação de passageiros no Nordeste e a participação privada. Lula enfatizou obras já anunciadas, concessões futuras e a retomada de uma rodovia marcada por décadas de disputas ambientais e judiciais.
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