Debate presidencial reacende disputa de Richarlison por imóvel em ilha no RJ
Jogador acusa Flávio Bolsonaro e advogado de tomar direitos sobre área; senador nega envolvimento, e processo terminou arquivado em janeiro de 2026

A disputa judicial envolvendo o jogador Richarlison e os direitos de ocupação de um imóvel na Ilha Comprida, em Angra dos Reis (RJ), voltou ao debate eleitoral na noite de sexta-feira (23). No último encontro entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) antes do segundo turno presidencial, marcado para domingo (25), Lula questionou o senador sobre o caso. Flávio negou irregularidades e afirmou que a questão já foi analisada pela Justiça.
Como a área pertence à União, a controvérsia não envolve a propriedade da ilha, mas os direitos de posse e ocupação do terreno e do imóvel construído no local. O caso foi relembrado neste mês após manifestações públicas de Richarlison e ganhou espaço na campanha presidencial.
O que foi dito no debate
No quarto bloco do debate da TV Globo, de tema livre, Lula afirmou que o advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio, teria conseguido regularizar os direitos sobre o imóvel em uma semana, enquanto Richarlison ainda aguardava a conclusão de sua situação documental.
Flávio respondeu que não houve irregularidade e disse que o caso teve decisão definitiva na Justiça. O senador reconheceu a amizade com Tomaz, mas negou ser sócio do advogado. Também afirmou que Richarlison teria sido enganado na negociação.
O episódio remonta a 2020 e envolve empresas, antigos ocupantes do imóvel, processos judiciais e procedimentos administrativos na Secretaria do Patrimônio da União (SPU).
Como começou a disputa
Segundo Richarlison, ele investiu cerca de R$ 10 milhões na aquisição de direitos possessórios sobre a mansão e em despesas relacionadas ao imóvel, por meio de uma empresa da qual é sócio. O jogador afirma que Flávio demonstrou interesse na propriedade, mas que recusou vendê-la.
Depois disso, o atacante passou a acusar o senador de ter se aliado a Willer Tomaz para retirar dele os direitos que reivindicava. Em vídeo publicado no Instagram em 17 de outubro, Richarlison disse que os dois teriam obtido na Justiça a ocupação da área após a recusa da proposta de venda. Também afirmou que não recebeu pagamento pela perda dos direitos.
Reportagem do Metrópoles citada pelo G1 informa que Flávio visitou a mansão em julho de 2020, a convite do então senador Wilder Morais. Na época, o imóvel era ocupado pelo empresário Antônio Marcos Pereira Silva, que negociava a transferência dos direitos possessórios para o grupo ligado ao jogador.
Em janeiro de 2021, Flávio teria voltado ao local acompanhado de Tomaz. Antônio Marcos disse ao Metrópoles que o advogado demonstrou interesse no imóvel e perguntou se a negociação poderia ser desfeita. Tomaz apresentou outra versão e afirmou que já conhecia a propriedade.
Documentos e versões divergentes
Em vídeo divulgado na quarta-feira (21), Richarlison apresentou contratos de cessão de direitos possessórios e comprovantes de pagamentos feitos a antigos ocupantes. Segundo ele, R$ 4,66 milhões dos cerca de R$ 10 milhões investidos foram pagos a essas pessoas. O restante teria sido destinado a reformas e segurança.
O jogador também mostrou números de processos administrativos da SPU. Ele afirmou que um pedido de regularização apresentado em setembro de 2021 ficou sem conclusão por cerca de dez meses, enquanto uma solicitação ligada ao grupo de Tomaz teria sido concluída em um dia, em julho de 2022.
Tomaz contesta a versão. Em nota enviada ao G1, afirmou que a empresa ligada ao jogador negociou com posseiros que não seriam os legítimos titulares dos direitos. O advogado também questionou os valores: segundo ele, a Sport 70 declarou no processo ter desembolsado R$ 2,6 milhões, e não R$ 4,66 milhões.
Tomaz sustenta que sua empresa adquiriu legalmente os direitos de ocupação da ilha e do imóvel, com base em escritura registrada, certidão da SPU e decisões favoráveis, inclusive no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Também afirmou que Richarlison responde a uma ação em Brasília e que um inquérito policial sobre o negócio foi arquivado por falta de indícios de crime.
O processo judicial
A disputa chegou à Justiça em 2022, quando a M Locadora de Veículos e Transportes Turísticos Ltda. entrou com ação de reintegração de posse contra a Sport 70, ligada a Richarlison, a YTA Consultoria e Renato Rocha Velasco. A empresa alegava ter direitos sobre a área, enquanto o grupo do jogador defendia a validade da negociação feita com antigos ocupantes.
O processo teve decisões provisórias em 2022, incluindo liminares e expedição de mandados. Em maio de 2023, o juiz Ivan Pereira Mirancos Junior extinguiu a ação principal sem analisar quem tinha razão sobre a posse. A decisão apontou divergências entre representantes da M Locadora: um dizia que a empresa mantinha a posse; outro afirmava que ela não ocupava o imóvel desde 1990.
A sentença não definiu quem tinha os direitos sobre a área nem reconheceu fraude processual. O magistrado permitiu o prosseguimento de uma ação apresentada pela Sport 70 e por Renato Rocha Velasco contra a M Locadora.
Segundo o histórico processual consultado pelo G1, o STJ manteve em junho de 2025 um entendimento favorável à empresa ligada a Tomaz. Em outubro daquele ano, foi homologada a renúncia apresentada pelo autor. O processo acabou arquivado definitivamente em 23 de janeiro de 2026.
Novas cobranças
Richarlison voltou a cobrar Flávio em 3 de outubro e pediu a devolução do imóvel. No vídeo de 21 de outubro, afirmou que procurou o senador no início do ano para tentar resolver o impasse, mas não recebeu resposta. O jogador disse que pretende continuar na Justiça para recuperar o imóvel ou os valores investidos.
O atacante também afirmou que pretende destinar parte de eventual indenização ao hospital de Nova Venécia (ES), sua cidade natal. Segundo a Folha de S.Paulo, o coletivo Derrubando Muros apresentou representação ao Ministério Público Federal (MPF) para pedir investigação sobre possíveis irregularidades na regularização do terreno.
Flávio nega participação na disputa. De acordo com o material, ele visitou a propriedade e foi incluído como testemunha no processo, mas afirma não ser parte da ação. O senador e Willer Tomaz também são investigados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por suspeita de lavagem de dinheiro. Ambos negam as acusações e dizem não ter negócios em conjunto.
O G1 informou que, segundo a Polícia Federal, Flávio foi cadastrado como “usuário master” de uma conta bancária de empresa de Tomaz. Os dois também viajaram juntos em uma aeronave administrada por empresa de Daniel Vorcaro, informação que integra as alegações investigadas.
Até agora, as versões seguem opostas. Richarlison afirma ter perdido direitos adquiridos e cobra reparação; Tomaz diz que a aquisição foi legal e respaldada pela Justiça; e Flávio nega envolvimento direto na disputa. O material consultado não informa decisão definitiva que reconheça fraude ou determine eventual indenização ao jogador.
- #eleicoes-2026
- #flavio-bolsonaro
- #richarlison
- #justica
- #angra-dos-reis
Encontrou um erro? Fale com a redação.
Leia também

Debate presidencial leva ferrovias e BR-319 ao centro das propostas
Flávio Bolsonaro prometeu um trem ligando capitais nordestinas, enquanto Lula citou obras ferroviárias e a pavimentação da rodovia entre Manaus e Porto Velho
24 de outubro de 2026

Debate reacende relato sobre acidente que fez Lula perder o dedo aos 17 anos
Presidente se opôs à referência de Flávio Bolsonaro aos “9 dedos” e voltou a narrar o acidente ocorrido em uma metalúrgica, em 1964
24 de outubro de 2026

Lula leva ao debate mãe de menina morta por tiro de fuzil no Rio
Cristiane Gomes da Silva acompanhou o último debate presidencial antes do segundo turno, ao lado de Geraldo Alckmin e Janja
23 de outubro de 2026