domingo, 25 de outubro de 2026--°
SM.Agora
Economia

Dívida pública deve impor ajuste ao próximo governo a partir de 2027

DBGG projetada em 82,9% do PIB e juros ainda elevados colocam o equilíbrio das contas no centro da agenda econômica nacional

Redação SM Agora5 min de leituraWhatsAppFacebook
Documentos financeiros e gráfico representando a evolução da dívida pública e das taxas de juros no Brasil
Documentos financeiros e gráfico representando a evolução da dívida pública e das taxas de juros no Brasil · Foto: renatolaky / Pixabay (Licença Pixabay)

O próximo presidente da República começará o mandato, em 2027, sob pressão para conter o avanço da dívida pública e apresentar medidas de ajuste fiscal. Segundo análise do investidor Bruno Corano, fundador da Corano Capital, a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) deve chegar a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), o maior nível desde março de 2021. O cenário, divulgado pelo Poder360 em 24 de outubro de 2026, também envolve juros elevados, inflação pressionada e necessidade de revisar o Orçamento da União.

A DBGG reúne as dívidas do governo federal, dos Estados, dos municípios e do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A proporção em relação ao PIB é acompanhada pelo mercado porque indica o tamanho do endividamento diante da capacidade de produção e arrecadação do país. Quanto maior esse percentual e menor a confiança na trajetória das contas públicas, maior tende a ser a dificuldade de financiamento do governo.

Para os moradores de Santa Maria, o debate aparece principalmente por meio dos juros, da inflação, do crédito e do orçamento federal. A taxa Selic influencia empréstimos, financiamentos e aplicações financeiras. Já a necessidade de equilibrar as contas pode afetar a margem para novas despesas, investimentos e programas públicos em todo o país, embora o material não detalhe efeitos específicos sobre o município.

Mercado já considera cenário eleitoral

A avaliação de Bruno Corano foi publicada um dia antes do segundo turno das eleições presidenciais. De acordo com o Poder360, o economista afirmou que o mercado financeiro já atribuía probabilidade próxima de 80% à vitória de Flávio Bolsonaro (PL). Na leitura dele, uma eventual reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) provocaria uma mudança mais brusca nos preços de ativos, justamente porque o cenário considerado pelos investidores seria alterado.

Essa análise não representa uma previsão oficial do governo nem do Banco Central. Trata-se de uma projeção de um investidor sobre a reação dos mercados a diferentes resultados eleitorais. Corano estima que a Selic, atualmente no centro da política monetária, poderia terminar 2027 entre 11% e 14%, dependendo do vencedor do segundo turno.

O economista também aponta diferenças nas expectativas de inflação. Segundo o material publicado pelo Poder360, o IPCA projetado para um eventual governo Lula ficaria acima do teto da meta. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo é o indicador usado oficialmente para medir a inflação no país. Quando a projeção supera o limite estabelecido, aumenta a pressão para que a autoridade monetária mantenha os juros elevados por mais tempo.

Propostas fiscais têm caminhos diferentes

Na análise apresentada por Corano, Lula manteria o arcabouço fiscal, atual conjunto de regras para limitar o crescimento das despesas públicas, e buscaria alcançar superávit primário de 1,3% do PIB até 2030. O resultado partiria de um déficit estimado em aproximadamente 0,4% do PIB em 2026. A estratégia também incluiria maior tributação sobre as rendas mais altas.

O superávit primário ocorre quando as receitas do governo superam as despesas antes do pagamento dos juros da dívida. Esse resultado é utilizado para reduzir a necessidade de novos empréstimos, embora não seja suficiente, sozinho, para diminuir o endividamento se os juros forem muito altos ou se a economia crescer pouco.

Para Flávio Bolsonaro, a projeção citada pelo Poder360 considera uma nova regra fiscal vinculada ao comportamento da dívida e um ajuste equivalente a 1,5% do PIB em 18 meses. Em valores nominais, o esforço ficaria entre R$ 190 bilhões e R$ 204 bilhões. A proposta mencionada inclui redução do número de ministérios, privatizações e diminuição de impostos.

Corano avalia, porém, que a estabilização da dívida exigiria um esforço de 3% do PIB, o dobro do ajuste atribuído ao plano de Flávio. No caso de Lula, o investidor defende a apresentação de um programa fiscal mais rigoroso logo no começo do mandato.

Orçamento de 2027 pode precisar de reforço

Além da dívida elevada, o próximo governo terá de lidar com despesas que não foram incluídas no projeto orçamentário enviado ao Congresso Nacional. Segundo informações divulgadas pelo Poder360, cálculos da equipe econômica, apurados pelo Estadão, apontam a necessidade de abrir cerca de R$ 39,8 bilhões no Orçamento de 2027 para acomodar medidas eleitorais.

O valor não aparece no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA), que estima receitas e fixa despesas da União em R$ 7,449 trilhões para o próximo ano. O texto considera salário mínimo de R$ 1.741, crescimento de 2,46% para o PIB, inflação de 3,6%, Selic média de 12,53% e superávit primário de R$ 18,6 bilhões, equivalente a 0,1% do PIB.

O projeto oficial é o PLN nº 24, de 2026, disponível no site da Presidência da República. O documento estabelece a previsão geral de receitas e despesas federais para 2027, mas ainda depende da tramitação e da aprovação pelo Congresso. Mudanças durante o processo legislativo podem alterar os números apresentados inicialmente.

O Poder360 também informou que medidas aprovadas em 2026 mobilizaram cerca de R$ 300 bilhões. Desse total, R$ 94 bilhões teriam impacto direto sobre o resultado primário, segundo dados da Instituição Fiscal Independente (IFI) reunidos em material fornecido ao jornal O Globo.

Banco Central seguirá no centro das decisões

A política monetária será outro fator decisivo para o próximo governo. Conforme o Poder360, o atual presidente do Banco Central permanecerá no cargo até o fim de 2028, em razão do mandato definido em lei. Assim, o presidente eleito em 2026 só poderá substituir o comando da autoridade monetária a partir de 2029.

O Comitê de Política Monetária (Copom), responsável por definir a Selic, tem reunião marcada para 4 de novembro, dez dias depois do segundo turno. Na projeção de Corano, uma vitória de Lula levaria a uma interrupção dos cortes da taxa em 13,75%. Com Flávio, o economista espera reduções de 0,25 ponto percentual.

Para famílias e empresas de Santa Maria, decisões desse tipo podem aparecer no custo do crédito, nas condições de financiamento e no rendimento de investimentos. O impacto concreto dependerá da inflação, do comportamento da economia e das medidas adotadas pelo novo governo. O material analisado não informa quais ações serão aprovadas nem como eventuais ajustes serão distribuídos entre áreas e programas federais.

A combinação de dívida alta, juros elevados e despesas ainda não incorporadas ao Orçamento coloca a política fiscal no centro das primeiras decisões do governo eleito. A resposta dependerá da capacidade de transformar promessas de campanha em medidas aprovadas pelo Congresso e em resultados efetivos nas contas públicas.

Encontrou um erro? Fale com a redação.

Leia também