Golpes com inteligência artificial miram familiares de vítimas da Boate Kiss
Criminosos prometem indenizações e cobram pagamentos antecipados; orientação é interromper o contato e procurar o advogado responsável

Familiares de vítimas da Boate Kiss estão sendo alvo de golpes que usam informações reais dos processos judiciais e recursos de inteligência artificial para simular contatos oficiais. Segundo reportagem do G1 RS, criminosos prometem a liberação de indenizações relacionadas à tragédia de 2013, mas exigem depósitos, transferências ou outros pagamentos antes de supostamente liberar os valores. A orientação de advogados e da Polícia Civil é não fornecer dados, encerrar a conversa e confirmar qualquer informação diretamente com o profissional responsável pelo processo.
O alerta atinge famílias que aguardam decisões em ações cíveis movidas após o incêndio que matou 242 pessoas em Santa Maria. De acordo com o G1, os processos envolvem pedidos de indenização por danos morais e materiais contra réus da ação criminal, além do Estado do Rio Grande do Sul e do município de Santa Maria. A maior parte dessas ações ainda aguarda julgamento no Tribunal de Justiça gaúcho.
A situação cria um ambiente de vulnerabilidade para os familiares. Além da perda, muitas famílias ainda acompanham a tramitação judicial e esperam respostas sobre responsabilidades relacionadas à tragédia. É justamente essa expectativa que, segundo representantes das vítimas, vem sendo explorada pelos estelionatários.
Como os criminosos abordam as famílias
Conforme os relatos reunidos pelo G1 RS, os golpistas se apresentam como integrantes do Judiciário, advogados ou intermediários envolvidos nos processos. Em alguns contatos, afirmam que existe dinheiro disponível para saque ou que uma decisão favorável foi tomada. Para dar aparência de legitimidade, utilizam dados verdadeiros sobre ações judiciais em andamento.
Uma das abordagens teria incluído um convite para acessar um link e participar de uma chamada. A vítima recebeu a informação falsa de que um juiz pretendia encerrar o processo. Em outro episódio, uma mãe de Tapera teria sido avisada por telefone de que havia vencido uma ação judicial.
O uso de inteligência artificial amplia o risco. Segundo o material publicado pelo G1, em um dos casos houve uma simulação de audiência. A tecnologia pode ser usada para reproduzir vozes, criar imagens e montar situações que aparentam ser uma conversa oficial. Para quem recebe o contato, a combinação de informações corretas com recursos digitais pode dificultar a identificação da fraude.
A delegada Débora Dias alertou que os autores desse tipo de crime vêm aperfeiçoando as fraudes eletrônicas. Por isso, a recomendação é evitar qualquer interação prolongada com os suspeitos. A pessoa não deve clicar em links recebidos, enviar documentos, compartilhar senhas ou informar dados bancários sem confirmar a identidade do interlocutor por um canal conhecido.
Indenizações não são liberadas mediante pagamento
O advogado da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM), Pedro Barcellos Jr., afirmou, segundo o G1, que profissionais responsáveis por processos não pedem pagamentos para liberar indenizações ou concluir ações judiciais. A cobrança antecipada deve ser tratada como sinal de fraude, especialmente quando vem acompanhada de pressão, urgência ou promessa de valores imediatos.
A orientação é interromper a conversa e procurar o advogado responsável pelo processo usando o telefone ou o endereço já conhecido pela família. A confirmação não deve ser feita pelo mesmo número, link ou aplicativo usado pelo suposto representante. Também é recomendável guardar mensagens, números de telefone, comprovantes, áudios e demais registros que possam ajudar na investigação.
O presidente da AVTSM, Flávio Silva, relatou ao G1 que uma mãe de Manoel Viana teria perdido R$ 1 mil após cair em um golpe. O caso mostra que os criminosos não precisam obter grandes quantias para causar prejuízo. Eles podem adaptar a abordagem ao perfil da vítima e usar a confiança construída ao longo de anos de acompanhamento judicial.
O que fazer após uma transferência
Quem realizou um pagamento deve avisar o banco imediatamente. De acordo com a orientação apresentada pelo advogado da AVTSM, a comunicação rápida pode permitir a tentativa de bloqueio ou recuperação dos valores, embora não haja garantia de devolução.
A vítima também deve registrar a ocorrência policial e informar o advogado que acompanha a ação. Os documentos do processo não devem ser enviados novamente a desconhecidos, mesmo que o interlocutor mencione números, nomes de órgãos ou informações que pareçam corretas.
O contato suspeito pode ser denunciado à plataforma utilizada e aos canais oficiais de segurança pública. Caso o criminoso alegue representar a Justiça, a família deve confirmar a informação diretamente no tribunal ou com o advogado constituído. Nenhuma decisão judicial deve ser considerada válida apenas porque foi apresentada por telefone, mensagem ou videochamada.
Processos seguem ligados à busca por responsabilização
A expectativa em torno das ações não se limita ao recebimento de dinheiro. Flávio Silva explicou ao G1 que as famílias também buscam o reconhecimento das responsabilidades de pessoas e instituições que, na avaliação dos parentes, contribuíram para as condições que permitiram a ocorrência do incêndio.
A tragédia aconteceu em janeiro de 2013, quando um artefato pirotécnico utilizado durante a apresentação de uma banda iniciou o fogo no revestimento do teto do palco. Conforme o material do G1, a fumaça tóxica provocou a morte da maioria das vítimas por asfixia. Muitas pessoas tentaram deixar o estabelecimento em meio ao desespero; relatos dos bombeiros indicaram que algumas buscaram a saída pelo banheiro.
Os quatro condenados pelo incêndio cumprem pena fora do regime fechado, segundo a reportagem, enquanto a situação das condenações continua sendo discutida após recursos apresentados à Justiça gaúcha. Esse cenário jurídico, somado à demora das ações cíveis, cria oportunidades para abordagens fraudulentas.
Para os familiares em Santa Maria e em outras cidades, a principal medida de proteção é desconfiar de qualquer promessa de liberação imediata de indenização acompanhada de cobrança. Processos judiciais devem ser tratados pelos canais oficiais e pelo advogado responsável, sem pagamentos solicitados por contatos inesperados.
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